quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

César Vallejo (dois poemas)

PEDRA NEGRA SOBRE PEDRA BRANCA

Morrerei em Paris com aguaceiros
num dia de que já tenho a lembrança.
Morrerei em Paris - daqui não saio -
numa quinta-feira, como hoje, de outono.

Quinta-feira será, pois hoje, quinta-feira,
em que estes versos proso, dei os úmeros
à pouca sorte, e nunca como hojevoltei,
com todo o meu caminho, a ver-me só.

Morreu César Vallejo, espancavam-no
todos sem que lhes fizesse nada;
davam-lhe forte com um pau e forte

com uma corda também; são testemunhos
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, os caminhos, a chuva...


POEMA PARA SER LIDO E CANTADO

Sei que há uma pessoa
que, dia e noite, me busca em sua mão,
encontrando-me, a cada minuto, em seu calçado.
Ignora que a noite está enterrada
atrás da cozinha com esporas?

Sei que há uma pessoa composta de minhas partes,
que eu completo sempre que o meu vulto
cavalga sua exacta pedrazinha.
Ignora que ao seu cofre
não voltará nenhuma moeda que saiu com seu retrato?

Sei o dia,
mas o sol escapou-me;
sei o acto universal que fez na cama
com alheia coragem e essa água morna, cuja
superficial frequência é uma mina.
Tão pequena é, acaso, essa pessoa
que até seus próprios pés assim a pisam?

Um gato é a fronteira entre eu e ela,
mesmo ao lado de sua malga de água.
Vejo-a pelas esquinas, abre e fecha
sua veste, antes palmeira interrogante...
que poderá fazer senão mudar de pranto?

Mas ela busca-me, busca-me. É uma história!

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Vem se puderes buscar-me

Ainda lá devo estar
No chão do quarto
Junto à cómoda
Perto da janela
Por trás do cortinado branco
Véu de noiva
Dissimulada
Dissipado
Agora que Novembro
Entrou de novo nos olhos
Dos animais e das folhas
Deste Outono
Vem num murmúrio
De joelhos e
Lábios abertos
A esconder sorrisos
No chão do quarto
Ainda lá devo estar
Fechado discreto fetal
Vem se puderes quase distraída
Sem segundas intenções
Que não sejam lavar-me
Das feridas mais primárias
Para depois
Tapar-me de flores vermelhas
De lençóis brancos
E de
Beijos

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

enquanto aguardas

Perguntas-me que fazer
Agora que os fósforos se apagam
Ao primeiro risco na folha áspera

E não sei o que dizer-te
A não ser que mais
Um luminoso incêndio atravessa estradas e aceiros
Na folha branca desta noite quente

E enquanto aguardas a água ou as palavras
Que te salvarão das chamas
Corres pela noite como se fosses
Um super-herói in

Combustível

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Meia-dose de sardinhas

Hoje morri um pouco

E morrer um pouco é uma coisa que me chateia
Como ao senhor primeiro-ministro o chateava ser sequestrado

Portanto vou deitar-me
Na cama do teu lado
Enquanto auto-desenvolvo e aplico
Magníficas estratégias para
Para desentristecer e clarear
Depois de mais um dia
Em que a meteorologia
Acertou ao lado
E sem equívocos
Esperar que abras a porta
E saltar para o teu colo
E abraçar-te calado

Ou isso ou não
Ou vou-me embora
(Pensava eu que sempre vinhas)

Está decidido
Vou sentar-me e esperar
Tenho para te mostrar
Um artigo interessantíssimo
Sobre a melancolia
Que há no lado de dentro
Das sardinhas

terça-feira, 2 de Junho de 2009

nadar de costas















Nos sítios onde te iniciaste a nadar debaixo de água
a boiar de peito feito e a ficar quieto
a olhar o azul das árvores
onde mergulhaste por entre fragas
perseguindo peixes verdes escorregadios
e bateste vários recordes de
natação absolutamente sincronizada
velocidade contra a corrente e
mergulho a enormíssimas profundidades
nunca aprendeste
afinal a nadar
de costas
para o rio

quinta-feira, 28 de Maio de 2009

mergulhar de cabeça

muito antes de aprender a sustentação do sal
descíamos correndo atalhos
pelas encostas dos montes
por entre arbustos pedras e pinheiros
a velocidades inimagináveis
para os dias de hoje
até chegar ao rio
vestirmos as árvores
de roupa espalhada
encher o peito
parar a respiração do ar
e mergulhar de cabeça
do cimo das pedras
para a corrente
de água verde

quarta-feira, 27 de Maio de 2009

a poda

«(…)
there's a lot of things that can kill a man
there's a lot of ways to die (…)»

Ray Lamontagne



caminhas de pés nus pela água da rega
as manhãs sobem aflautadas no azul de Maio
por entre ervas pó e as duas laranjeiras bravias
do secolinho de cima
há muitos modos de ficar vivo
no coração da terra
respiras fundo
enquanto descem para o chão
os braços fortes das enxadas
abrindo sulcos na memória
por onde deslizam ainda os
teus sonhos mais antigos mas
a verdade é que
continuas a saber pouco da poda

terça-feira, 5 de Maio de 2009

para ti















Como uma pálpebra aberta ao vento
Avanças pé ante pé sobre finos fios
Dobrando cuidadosamente os dedos
Junto à erva rente ao muro

Pássaros e anjos trazem-te da infância
As cores do mundo
As cores de haver um tempo
Muito longe de calendários e relógios

De regresso à casa onde deixaste o coração
Acendes na obscuridade do dia a janela para a rua
E o som de vozes subitamente familiares
Vem por entre a cinza e o pó da terra e das estrelas
Deitar-se ao teu lado

E adormeces
Apertando sonhos
No local exacto onde nasceste

terça-feira, 7 de Abril de 2009

o caminho da felicidade

Um dia
De regresso à casa onde nasceste
Relâmpagos memoriosos desvendarão
Nevoeiros sombras o som da água dos ribeiros
A descer a curva funda das encostas
Por entre as pedras grandes o musgo macio
As folhas penduradas nos ramos
De todas as árvores a que subiste
A relva cortada em pequenos molhos rente
À lâmina nervosa do ceitoiro
Sobre a terra húmida e depois
Os pés no pó de Maio
E ver-te-ás rasgando o ar
Enquanto o chão espera por ti
A caminho de uma dor aguda
Que fazia dos dias lugares vivos
Lugares da cor do sangue por onde
Corrias a fugir de tudo cães rostos sombras
Irás de novo a todas as missas de domingo
Para comungar silenciosamente e
Ouvir o senhor prior contar e cantar
Os ensinamentos de Deus
Por entre os murmúrios
Da multidão de fiéis em linha
E inclinar-te-ás respeitosamente

(amor a quanto obrigas!)
Enquanto espreitas o peito adolescente
Sentado no banco

Das raparigas


(foto emprestada)

domingo, 22 de Março de 2009

a primavera

a prima sempre veio
trouxe um bolo de ameixas feito pela avó
e alguns frutos secos já antigos
trouxe uns pós muito mágicos
para deitar na comida ao lume
trouxe com ela também
um vento diferente
quase beijo quente
quase riso
quase ar
prima ai
que falta me vai
fazendo
este
vento

quinta-feira, 19 de Março de 2009

dia do Pai (e canção para o meu filho)



Nem tudo foi suave
Nas manhãs de dias aflautados
Ou de chuva metálica nos beirais da casa
Nas tardes em que os teares batiam
Entre tapetes e mantas coloridas
Ou nas noites escuras nubladas de estrelas e luar
Mas, tu sabes
A suavidade vem também por outros lados
Porque este é o tempo que temos para viver
São as horas os minutos os segundos
Hoje são estas as palavras
Que tenho para ti
Neste dia da cor de outros mundos

segunda-feira, 16 de Março de 2009

A Festa da Vida

Recordare - etimologicamente significa qualquer coisa como passar de novo pelo coração.

Graças ao blog assaltoaocastelo.blogspot.com foi-me possível recordar a letra desta canção. Tinha dez anos. Como muitos dos nossos jovens actualmente. Alguns dos adultos lembrar-se-ão também. Outros não. Alguns demoraririam ainda alguns anos a ver a luz. Outros demoram mais tempo. Outros não a vêem nunca. Mas a Festa da Vida não comemorava só a vida em festa, ia mais longe porque o teempo era outro. Tinha outro peso no tempo actual em que 'ser leve', como dizia um dia destes o senhor Miguel Sousa Tavares dá muito jeito para levar a vida... em festa. Viva la vida...!

domingo, 8 de Março de 2009

duas do damien seguidas...

Damien Rice - the blower's daughter

terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

amanhã

Max Richter, Mirror (intro)

amanhã
quando o sol do meio dia
estiver
quinze minutos
depois das duas horas
abrirás os olhos
as mãos
a boca
gritarás muito alto
o nome
de teu pai
de tua mãe
o teu nome
o nome
de teu filho
e
nascerás depois
se tiveres sorte
para um meio dia
mais tranquilo

outras palavras...

A chuva é triste porque nos faz lembrar quando éramos peixes.
A árvore procura um coração debaixo da terra com as mãos crispadas das suas raízes.
A única pessoa que muda de verdade a face do planeta é aquele que lavra modestamente o seu terreno.
________________
Ramon Gómez de La Serna

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

pai, alguns poemas teus

Há um deserto imenso no silêncio
Que traz o peito aberto à tempestade
Onde os sonhos perdidos adormecem
Vestindo a cor difusa da saudade

E tu? onde eu morava imperturbável
Quem de ti me afastou tão cedo ainda
E me condenou de forma irrevogável
À descrença na fé que era minha?!

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Havia um poema à beira-rio
Por entre o verde dos amieirais
Onde as rolas de porte airoso no estio
Descuidadas noivavam aos casais

Quando o mundo em sobressalto se agitava
Vinha a vida em paz serena aqui morar
E havia a moleirinha que passava
Com promessas de pão no seu andar

E havia além do rio verdes prados
Onde os gaios em julho debicavam
As espigas do milho tenro e grado
Rindo dos palhaços que as guardavam
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Já passaram tantas luas
Tantos estios e horas
Há sombras nas casas nuas
Da rua onde tu moras

Se tu soubesses a côr
Desta secreta amargura
Deste doer sem ter dor
Que no meu peito perdura

Talvez tu me perdoasses
Ou talvez não... eu sei lá!
Se outra canção eu cantasse
... o trailará trailará...

Dirias não sei o quê
Entre um sorriso aberto
O que entre nós se não vê
E fica do amor tão perto.


dia de aniversário

depois de viver
quarenta e sete anos
ao pé de ti
continuo sem ter a certeza
em que raio de dia
afinal nasceste
vinte e oito de janeiro
vinte e oito de fevereiro
era assim naquele tempo
não interessa como vieste
não interessa como foste
não interessa como deste
a tua vida
agora estou aqui
à espera que o sono venha
e a alma se solte
para poder voar
ir abraçar-te
descer à loja dos teares
ou ir à tua cama para
me despedir de ti
uma vez
outra vez
e dizer-te que
não quero olhar lá para fora
não quero saber de outros rostos
estou cansado
por isso
diz-me se o vento ainda sopra
por entre os amieiros junto ao rio
diz-me em que lugar se foi esconder
o pássaro de que perdi o nome
diz-me se posso abraçar-te
uma vez
outra vez
neste dia de oitenta anos
de memórias e
rumores de asas
de palavras
que voltaram para
te aconchegar o sono
como se tua mãe
tivesse aparecido de repente

terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

08 de Dezembro de 1994

foi ontem
era o começo da tarde
quando

agitando os braços
e abrindo muito os olhos procuraste a luz
que te esperava
na minha mão direita apertava
a mão esquerda a tua mãe
e tu voavas
por sobre todas as nossas vidas
todo o nosso passado

todos os nossos futuros
e antes e depois houve o teu choro
e os choros do costume
e de repente cresceste tanto
e ontem é já um dia
que passou há tanto tempo
como se fosse ontem
como se estivesses nos meus braços
pela primeira vez
e pela primeira vez sorriste
e pela primeira disseste
e pela primeira vez
segurei com a palma da minha mão
a tua nuca para te molhar de água
óleo e alegria
como se fosse amanhã
e tu fosses de novo
pequenino
no meu
colo

sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

o colar do natal

Dois anos antes deste dia
Num tempo onde com o lento decompor
Das folhas de inverno no peito dos montes
Era outra vez natal
Comprei para te oferecer um
Bonito colar
Era bonito o colar
O natal não
Quase de repente e
Já não era bonito e
Era outra vez natal como agora é outra vez natal
E a beleza está, como sempre aliás,
Onde formos capazes de a colar
E não deixa de ser estranho não me lembrar
Assim muito bem do tal colar
Mas lembrar-me muito bem do colar dele
Ao teu pescoço
Que fino o teu pescoço
Com ele posto
A tua pele onde
Outro colará agora
Os dedos
Portanto
Dois anos antes deste dia
Igual
Era como agora é
Natal

terça-feira, 4 de Novembro de 2008

como te prometi

Como prometi
Aqui estou
Vou acordar-te para me despedir de ti
Não te zangues
Quero voltar a olhar-te antes de dormires
Quero regressar ao mar
Rasgar
Envelopes nervosos
Quero
Que te encolhas
No meu colo
Despenteies
Distraidamente os dias
Lembrar a minha rosa
Como te prometi

Para nunca mais
Me esquecer


sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

mapa de flores

«amanhã é dia de pormos flores nas pessoas que gostamos e estão no céu...»
Maria Manuel, 3 anos

sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Try Again

«Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better»
Samuel Beckett

segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

espelho de luz

sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Se houvesse degraus na terra...

«Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.»


?, Herberto Helder

quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Um dia

Um dia
haverá uma lágrima azul
dentro do teu corpo
uma luz intermitente
dançará na noite

Vais sentar-te no muro
de frente para a serra e
chorarás
como previsto

Estarás só e apenas a sua voz
ecoará dentro de ti
chega-me os fios um a um filho
Está bem pai

O cinza dos teus olhos
no fio dos dedos
quando se tocavam
um a um
a caminho das nuvens

até onde a vista alcança...

Vista para Norte, a meio caminho do primeiro dos três montes (cabeços).

terça-feira, 7 de Outubro de 2008

Penedo da Saudade

O Penedo da Saudade, em Aldeia das Dez: lugar de encontros

segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

a história da moral

(...)
«Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo

De ombro na ombreira, Alexandre O'Neill

domingo, 5 de Outubro de 2008

Serra da Estrêla

Em Aldeia das Dez, por entre as árvores, vista da Serra da Estrêla.

há muitos anos

«o resto não dá sequer para encher um copo de água que nos mate a sede,
nem para a partilha da lua, nem para o sossego da consciência.
há um pequeno jogo medular, uma força própria das coisas que não se apagam
e nem as leva o vento nem a sombra pode diluí-las.

só falo de uma aldeia sumida e entranhada como o tempo,
em frente a provesende, das suas pedras, dos seus chãos íntimos de terra e de madeira
onde passou toda a gente desta história, eu inclusivé, até emigrarmos para aqui,
como se almoçássemos num dia de vindima há muitos anos.»

Arredores da Família, Vasco Graça Moura

sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Aldeia das Dez - Monte do Colcurinho

Em frente à loja dos teares, lá em cima, a 1244 metros de altura, o Monte do Colcurinho é o terceiro dos três cumes mais altos na paisagem (vista da casa dos meus pais).

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

meu filho

«Ouves meu filho o trilho do silêncio
Vasto silêncio visto vês agora?
nada fará supor tão régio uníssono
na língua dos batráquios ao sol posto
Como um confetti despressurizado
Vens no rigor dos ovnis gatinhando.
Quem é bonito? Quem o vento apanha?
Quem não foge à passagem do granizo?
Menino logo lego de adivinho
Viúvo incerto filho de Atenágoras.
As cordas desta harpa já não soam
e o gelo queima as ervas da montanha.»


Textos e Canções, José Afonso

De olhos bem abertos


domingo, 28 de Setembro de 2008

pedaço de carta...

«Meu amor
Estranha forma de vida, esta, em que certa noite se acorda no escuro, ouve-se o galo a cantar e parece que estamos na quinta onde se passou a infância. Fixa-se a escuridão de olhos esbugalhados e espera-se que amanheça, e entretanto a tua infância está ali, presente, junto à tua cama, quase poderias levá-la pela mão, vá, leva a tua infância pela mão, dizes para contigo, vá, coragem, ainda que tenha passado tanto tempo, ainda que pareça que a vida te sepultou, ela está aqui a escassos centímetros, está ao teu alcance, anda, leva-a pela mão, coragem. (...)»

Si Sta Facendo Sempre piú Tardi, Antonio Tabucchi